Alfredo Bosi As sombras das luzes na condição colonial Sobre a poesia de Basílio da Gama: A segunda metade do século XVIII reprezenta para a Europa o iluminismo e os princípios da tolerância e liberdade ↔ ao contrário com as colônias, onde predomina a opressão e tráfico negreiro. Naquela época, a Razão é marcada pelos interesses políticos. Conforme os metropolitanos, era razoável submeter indígenas ou africanos a trabalhos compulsórios → a racionalização resultava do uso da força. Já no século XVII podemos notar a lógica binária do padre Antônio Vieira: os sermões em favor dos nativos ↔ „guerra justa“. As Luzes precisavam de vassalagem, controle dos nativos e escravização dos negros para melhor „irradiação“. Mas quem escraviza, não é bem visto pela sociedade. Por motivo do prestígio a ilustração portuguesa, virando a casaca, queria excluir o uso da força, mas os fazendeiros reagiram de forma negativa. A única solução consistiu em que o Estado lhe fornecesse os subsídios para recompensar o braço negro. As duas caras do vassalo ilustrado: Os esritores luso-mineiros B. da Gama e T. Gonzaga eram fieis ao marquês de Pombal. Nas suas obras (O Uraguai/ Cartas chilenas) defendem as violências cometidas pelos colonizadores contra os nativos e escravos negros. O motivo? → Ou a subordinação deles (por causa do medo), ou eles „reconheceram“ os direitos da Europa de reger os outros povos. Poesia e esquema retórico-ideológico: Podemos dizer que a obra O Uraguai reprezenta ambas hipóteses mencionadas. Em 1760 o Basílio da Gama é expulso do Rio de Janeiro e chegou à Europa. Para que evite o desterro para a África, intriga e escreve um Epitalâmio da Excelentíssima Senhora Dona Amália, própria filha do Pombal, e compõe O Uraguai que justifica o massacre dos indígenas feito por „braço direito“ pombalino – Gomes Freire. A obra é um dos mais intrigantes testemunhos e o autor tem que enfrentar muita crítica. No primeiro canto o assim-chamado herói da obra – general Gomes Freire é retratado como um comandante férreo. A oposição é caraterizada no segundo canto pelas vozes heróicas dos rebelados – Sépe e Cacambo que sem as armas enfrentam o general e colocam em dúvida a intenção original dele. Os interesses da metrópole ficam em cima dos interesses dos outros. Os índios comportam-se duma maneira muito razoável e defendem os seus direitos e seu território („E enquanto às armas/ Dão lugar à razão“ II, 48-59). Os índios-„bárbaros“ instruem os europeus, argumentam com eles, condenam o Tratado de Madri e explicam a situação pobre dos missioneiros que vivem modestamente („Muito suor, e pouco ou nenhum fasto“ II, 102). O general argumenta e julga que: · os índios estão enganados pelos jesuítas · a escravidão é superior à liberdade no estado selvagem e que o senhor garante-lhes a segurança e paz · a benevolência do rei de Portugal atribui sempre uma forma de liberdade ao índio · a vontade do rei mante-se por bem ou por mal Mas o Cacambo e Sepé não crêem nas palavras do Gomes Freire e sublinham as reivindicações da liberdade dos índios que tantas vezes era violada na América. Os guaranis não têm medo de nenhuma autoridade; condenam o rei, mas admitem os jesuítas („Desconhecemos, detestamos jugo/ Que não seja o do céu, por mão dos padres“ II, 81-82). O canto narra a história da batalha de Caiboaté que ocorreu no ano 1756, em que morreram 1500 índios e foram aprisionados 154. Sepé é morto, mas a personagem dele sobreviveu graças ao senhor Simões Lopes Neto que o transformou em sua obra Lendas do Sul numa figura lendária. Uma figura da dialética da colonização: A epopeia de Basílio da Gama trata de episódios em que os missioneiros se opõem à prepotência do exército colonial comandado pelo próprio „herói declarado do poema“. O autor é percebido como intelectual luso-mineiro que adoptou os ricos e diversificados pensamentos das Luzes européias. As suas ideias anticolonialísticas transcenderam a sua época. Este espírito anticolonialista adoptavam também os autores franceses como Montesquieu, Voltaire ou Raynal. O último compara os conquistadores ibéricos com os „bárbaros europeus“. Afirma que „A teocracia seria o melhor de todos os governos, desde que a religião respeitasse os direitos naturais da humanidade“ e conclui que „talvez jamais se tenha feito tanto bem aos homens com tão pouco mal“. Basílio da Gama cria as personagens Cacambo e Sepé que desempenham o papel dos guaranis que são contra os conquistadores europeus e salientam a liberdade natural. A ideológia da sua obra é bem complexa e inclui várias contradições: · O válido de Pombal elogia o executor das ordens colonizadoras · O intelectual de horizontes europeus reconhece o direito à liberdade de todas as nações · O poeta sensível sabe onde pulsa o sentimento de um povo vencido mas indomado A vez da África: Basílio compôs no ano 1791 o poema Quitúbia que celebra a soberana Maria. O herói desta obra é um soldado africano, vassalo negro ao trono português, de nome Domingos Ferreira de Assumpção (Quitúbia), que debela os seus irmãos negros rebeldes. O poeta sente a piedade com as vítimas inocentes negras. O Uraguai → português Gomes Freire → Portugal → „República infame“ Quitúbia → angolano Domingos Ferreira → África → „África submissa e obediente“